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Homenagem Helmuth

Homenagem ao Engenheiro Helmuth Treitler

*Por Prof. Flavio Miguez de Mello

O professor Helmuth Gustavo Treitler teve uma vida dedicada à Escola Politécnica e à Universidade Federal do Rio de Janeiro. Quando ingressou para cursar engenharia civil no longínquo ano de 1941 em plena Segunda Guerra Mundial e no governo de Getúlio Vargas, essas entidades tinham outras designações. Eram Escola Nacional de Engenharia e Universidade do Brasil.

O Professor Helmuth concluiu o curso em 1946, foi professor de construção civil cujo catedrático era o professor Jurandir Pires Ferreira, foi por muitos anos o engenheiro residente da construção da Cidade Universitária tendo morado em condições precárias no grande aterro que reuniu diversas ilhas da Baia da Guanabara nas proximidades da Ilha do Governador, e foi posteriormente superintendente do Centro de Tecnologia.

Por ser mais moço e não ter cursado a opção de construção civil, só conheci Helmuth já aposentado da UFRJ, mas sempre atuante na Associação dos Antigos Alunos da Politécnica A³P. Ele sempre participava de todas as atividades e contribuía com ideias, colaborando com trabalhos diversos. Foi diretor e conselheiro por longos anos.

No final da década de noventa decidi escrever sobre a construção da Cidade Universitária que vi nascer quando era estudante nos idos de 1953 a 1957. Daquela época aos dias de hoje nem todas as unidades da UFRJ já se mudaram totalmente para a Cidade Universitária como havia sido previsto antes do meado do século passado. Por outro lado, as unidades da UFRJ cresceram muito em número e em efetivos de docentes, discentes e funcionários, salas e laboratórios. Basta exemplificar que a Escola Politécnica seria restrita aos andares superiores do atual Centro de Tecnologia, ficando os atuais primeiros andares de todos os blocos destinados serem vãos livres de estacionamento.

Em 1999 decidi escrever sobre a história da construção, ainda inacabada, da Cidade Universitária. Ninguém melhor do que consultar Helmuth que havia vivenciado o início de tudo. Tive uma inesquecível reunião com Helmuth e com o saudoso Paulo Rodrigues Lima que foi catedrático do que hoje é conhecido como expressão gráfica e que conhecia a UFRJ como ninguém. Foi uma reunião memorável.

Infelizmente não consegui efetivar a redação do livro, mas Helmuth contou alguns episódios da construção da Cidade Universitária que uma década depois inclui no livro Episódios da Engenharia e da Política no Brasil. Selecionei três desses episódios que narro a seguir.

O Marechal e o Vigia

O general Henrique Batista Duffles Teixeira Lott, que, ao se reformar, seria alçado à patente de marechal, patente esta hoje extinta, era, naquela época do governo Juscelino Kubitschek de Oliveira, a pessoa mais poderosa da República. Em 1954, no mesmo dia do suicídio do presidente Getúlio Vargas, tendo em vista a tensa situação nacional vigente, foi escolhido pelo recém-empossado presidente Café Filho para o posto de ministro da Guerra pela sua intolerância com indisciplinas. Lott permaneceu nesse cargo de 1954 a 1959, nos governos de Nereu Ramos e Juscelino Kubitschek. Se afastou apenas para concorrer à presidência da República como candidato da situação, na tentativa de suceder JK. Com o pretexto de garantir as eleições, Lott derrubou dois presidentes: Carlos Luz, que substituiu Café Filho, infartado, e o próprio Café Filho, que, restabelecido do infarto que o afastara do cargo, quis reassumir a presidência e foi impedido.

A Cidade Universitária encontrava-se em início de construção naqueles anos dourados do meado do século passado. O engenheiro Helmuth Gustavo Treitler chefiava as obras, que, em seu estágio inicial, compreendiam um vasto aterro unindo nove ilhas da Baía de Guanabara, nas proximidades da Ilha do Governador (RJ). Sobre uma dessas ilhas, a Bom Jesus, foi construído o Centro de Tecnologia que hoje abriga a Escola Politécnica, a Escola de Química, o Instituto de Química, o Instituto Alberto Luiz Coimbra de PósGraduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) e o Instituto de Macromoléculas.

A Ilha de Sapucaia, lixão da cidade até o final dos anos 1940, é o terreno do prédio que abriga a Reitoria e as faculdades de Arquitetura e de Belas Artes. A Faculdade de Medicina e o Hospital Universitário ficaram na Ilha do Fundão, que desde aquela época integrava o acesso à Ilha do Governador.

As demais ilhas eram menores: Baiacu, Cabras, Catalão, Pindaí do Ferreira e Pinheiro. No extremo sudeste da Ilha de Bom Jesus, o Exército mantém o Asilo Voluntários da Pátria, ali instalado para originalmente abrigar os combatentes combalidos egressos da Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai. Nos anos 1950, o comandante dessa unidade era o coronel Evilázio Vilanova, cunhado de Lott. Algumas vezes, aos domingos, Lott visitava o cunhado e se banhava e pescava na praia da Ilha de Catalão, na outra extremidade do grande aterro que se encontrava em execução.

Disciplinado, ele sempre comunicava ao escritório chefiado pelo engenheiro Helmuth que iria à praia no Catalão. Em um desses domingos, Helmuth instruiu cuidadosamente o vigia de que o ministro da Guerra e pré-candidato à presidência da República iria à praia. Tudo precisaria estar no maior capricho. “Não fique perto dele, deixe ele à vontade, mas fique às ordens caso precise de alguma coisa”, instruiu.

Havia certa dificuldade com os vigias, pois o governo não admitia contratações para esse cargo. Assim, os que não eram capacitados para os demais serviços se tornavam vigias. Naquele dia, entretanto, Lott demorou na casa do cunhado, tomou umas caipirinhas, adormeceu numa rede e só mais tarde, depois das 15 horas, é que foi à praia, quando a guarda havia sido trocada.

Quando chegou ao Catalão, foi barrado pelo novo vigia, que não havia sido avisado pelo seu antecessor. Lott, que vestia um calção de banho, chinelo, camiseta e vasto chapéu, mostrou a ele sua identidade achando que isso seria suficiente para o vigia deixa-lo ir à praia. O vigia pegou a identidade e olhou. Lott, verificando que o vigia olhava a sua identidade de cabeça para baixo, disse que seria mais fácil de ele ler se virasse o documento de cabeça para cima. O vigia permaneceu sem conseguir ler, pois, nessa altura, Lott percebeu que ele, o vigia, era analfabeto. O vigia disse que o engenheiro Helmuth era muito bravo e, sem sua licença por escrito, ninguém poderia chegar à praia. Embora fosse a mais influente personalidade do País, como amante da disciplina, resignou-se a retornar à casa do cunhado e limitar-se a tomar uma chuveirada. O coronel Evilázio Vilanova, vendo Lott retornar sem ter nadado e pescado, telefonou preocupado: “Helmuth, você barrou o homem?” Helmuth, ao saber do ocorrido, se apressou a explicar.

Viúva-Negra

Quando eu era jovem, ainda no curso secundário, fiquei impressionado ao ler no Diário de Notícias, jornal que minha família assinava, que a Força Aérea bombardeara a ilha da Cidade Universitária para eliminar as perigosíssimas aranhas denominadas viúvasnegras que infestavam o local onde estava sendo iniciada a construção do novo campus da Universidade do Brasil (UFRJ) e já haviam atacado um sargento da Aeronáutica.

Ao mencionar esse fato com o engenheiro Helmuth Gustavo Treitler, que havia sido o residente da construção da Cidade Universitária desde o início do grande aterro que uniu as nove ilhas formando uma grande ilha artificial, ele me disse que, por incrível que possa parecer, o fato realmente ocorreu. Do grande aterro para a formação do terreno do campus, uma parte era de areia que foi transportada por barcaças de capacidade de cerca de 400 m³ e depositada nas proximidades de onde foi construído o prédio da Puericultura, na Ilha do Fundão.

Embora o movimento das águas do mar tivesse levado cerca da metade do volume de areia para a praia de Ramos onde hoje se encontra o Piscinão de Ramos – conforme a conclusão de estudo do professor Maurício Joppert da Silva –, ficou uma pequena ilha arenosa de fácil acesso a vau. Pessoas iam lá pescar. Um dia um sargento da Aeronáutica que foi lá pescar adormeceu e, quando acordou, estava passando mal, tendo sido levado para um hospital. Na confusão, disseram que ele teria sido picado por uma viúva-negra. A história ganhou vulto e a Força Aérea colocou no local duzentos tambores de gasolina e interditou o aeroporto internacional do Galeão por três horas; três caças levantaram voo do Campo dos Afonsos, deram vários rasantes sobre o local e lançaram bombas Naplan. Estas não atingiram o alvo, e sim o canteiro do prédio da Puericultura, destruindo-o completamente.

Posteriormente, o engenheiro Helmuth coletou cuidadosamente cerca de oitocentas viúvas-negras e foi ao local onde estavam os tambores de gasolina e colocou fogo. As viúvas-negras coletadas foram levadas ao Instituto Oswaldo Cruz em Manguinhos, onde Helmuth passou a saber que essas aranhas não atacam e são muito comuns principalmente nas praias no entorno de Niterói.

Antes do Autódromo

Nos anos 1960, meus tios Gustavo e Pedro Vieira de Castro executaram várias obras que hoje compõem o campus da UFRJ na Cidade Universitária. Naquela época e nos anos anteriores, as provas de automobilismo e motociclismo no Rio de Janeiro eram disputadas nas ruas da cidade.

No início da Fórmula 1, o circuito do Rio de Janeiro era denominado Trampolim do Diabo, justamente pelo seu perigo. A largada era no Canal do Leblon e seguia pela Avenida Niemeyer, até onde hoje fica a Rocinha. Subia até a outra vertente a descia pela Rua Marquês de São Vicente, esta de paralelepípedo e com trilhos de bonde em toda a sua extensão.

Espectadores, meio-fios, muros de residências, árvores, postes e toda sorte de obstáculos eram constantes nas laterais da pista. Os ases do volante disputavam as provas com impressionante coragem. Não é possível imaginarmos nos dias de hoje um circuito como esse.

O argentino Juan Manuel Fangio, cinco vezes campeão da Fórmula 1, foi o grande vencedor desse circuito. O brasileiro de melhor desempenho era sempre Chico Landi, pilotando uma Maserati. Depois dessa fase, nos anos de 1964 e 1965, as provas de motociclismo começaram a ser disputadas no País sob a liderança de Eloy Gogliano, primeiro presidente da Associação Brasileira de Motociclismo e primeiro vencedor de uma prova de motovelocidade em Interlagos.

No Rio de Janeiro as provas eram disputadas em circuitos urbanos improvisados na Quinta da Boa Vista, no entorno do Campo de São Cristóvão ou em volta do então recentemente construído Estádio Municipal do Maracanã. No circuito da Quinta da Boa Vista, o melhor tempo pertence a Carlos Eduardo Marques de Souza Zielinsky, com um minuto, treze segundos e sete décimos. Ele pilotava na ocasião uma Norton, e a prova era de motociclismo. O segundo melhor tempo é do Fangio: um minuto, catorze segundos e sete décimos. Ele pilotava uma Ferrari Testa Rosa, motor V12, numa prova de automobilismo grau Turismo.

É fácil imaginar que, tanto nas provas de automobilismo quanto nas de motociclismo, qualquer acidente poderia levar a trágicas consequências. Até porque as corridas atraíam muitas pessoas nas calçadas. Zielinsky, campeão brasileiro e sul-americano, era na época noivo, e hoje casado, da minha prima Lúcia Maria.

Ele pediu ao meu tio Gustavo que na época construía prédios para a Universidade do Brasil para tentar transferir as provas para a futura Cidade Universitária que estava em construção. A ideia dele era que um circuito em volta do terreno em que estava sendo construído o Centro de Tecnologia seria muito mais apropriado para as provas. Meu tio entrou em contato com o engenheiro Helmuth Gustavo Treitler, responsável pelas obras, que prontamente conseguiu a autorização para provas aos domingos, dias em que não havia atividades de construção. Assim, a Associação Carioca de Motociclismo pôde começar a realizar as provas ali nas manhãs de domingo. Foram sete, das quais Zielinsky venceu seis e Demar Netto Muniz, vulgo Contrapino, uma.

Aproveitando a iniciativa do motociclismo, o circuito da Cidade Universitária passou a ser usado também para o automobilismo. Foram 20 edições. Na primeira delas, Emerson Fittipaldi capotou na rótula entre o Centro de Tecnologia e o prédio da Reitoria, pilotando um Renault Gordini. O motor chegou a se separar do carro, que era de propriedade de Hélio Massa.

Fittipaldi venceu quase todas as outras provas. Sempre que isso acontecia, Norman Casari comprava o carro vencedor. Não demorou para todos perceberem que o sucesso não era devido ao carro, e sim à qualidade do piloto, como ficou comprovado posteriormente na Fórmula 1 e na Fórmula Indy.

Vários outros pilotos se destacaram nesse circuito da Cidade Universitária, como os irmãos Bobby e Ronny Sharp, Christian Heins, o próprio Norman Casari e Wilson Fittipaldi. Em 2001, perguntei ao Zielinsky o que ele sentia ao recordar aquela época. “Gostaria que o tempo voltasse. Foi muito bom enquanto durou”, admitiu. Helmuth se lembrava bem das provas. Além de suas importantes contribuições para a engenharia, Helmuth contribuiu também para o desenvolvimento do motociclismo e, principalmente, do automobilismo que destacou tantos pilotos em grandes prêmios da Fórmula 1 e da Fórmula Indy.

Helmuth deixou saudades em todos que com ele conviveram, principalmente, tenho certeza, nos que estivemos e trabalhamos com ele na Universidade e na Associação.

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